Transmissão através da mucosa genital é responsável por 90 por cento das infecções

Há apenas alguns meses atrás os cientistas descobriram qual o componente do sémen responsável pela infecção masculina do HIV.

Agora está a tentar perceber-se o que se passa no caso feminino. Uma equipe da Universidade McMaster, no Canadá, está averiguando uma nova via pela qual o vírus penetra o corpo feminino.

Não se trata nem de úlceras nem de feridas genitais. Os investigadores repararam que é o próprio VIH que consegue enfraquecer as células epiteliais, responsáveis pela formação de uma barreira que impede a entrada de organismos estranhos de passar ao interior do corpo.

O vírus desenvolveu a sua própria estratégia para intimidar estas células e atravessar sem grandes dificuldades a mucosa genital, segundo o estudo publicado na Plos Pathogens. “Trata-se da primeira vez que se demonstra que o HIV ataca diretamente as funções desta porta de entrada”, afirma Charu Kaushic, professora de terapia genética e coordenadora deste trabalho.

“Esta descoberta pode supor um passo importante quando se pensa em desenvolver vacinas e microbicidas, os desafios futuros na luta contra a pandemia da SIDA. Em vez de nos concentrarmos em atacar as células onde o HIV se protege, o foco deve estar nas células epiteliais, que são o primeiro contacto do vírus com o corpo”, explicou a especialista.

Ruptura ao fim de um dia

Nesta investigação, os autores isolaram células epiteliais de tecido uterino removido durante uma histerectomia (cirurgia para remover o útero de uma mulher). Ao expor as amostras ao vírus, observaram que, ao fim de duas horas, a resistência que apresentavam perante o HIV diminuiu um pouco e que 24 horas depois o vírus entrava sem dificuldade no tecido genital, porque a mucosa já estava quebrada.

“Esta ruptura parece dever-se a fatores inflamatórios produzidos pelas próprias células em resposta ao HIV. Quando na presença do vírus, as células tentam defender-se mediante uma inflamação, que destrói as uniões entre elas, abrindo um espaço ao vírus”, explicam os investigadores.

Numa metáfora futebolística, isto seria o mesmo que no caso de uma cobrança de falta, a barreira formada pelos jogadores da equipa adversária para proteger a barreira se abrisse no momento da cobrança.

Prevenir e investigar
Mesmo que muitos outros vírus e bactérias já tenham demonstrado a sua capacidade para comprometer a integridade da barreira epitelial, até agora nenhum trabalho tinha analisado o efeito direto do HIV sobre esta mucosa.

A transmissão através da mucosa genital é responsável por 90 por cento das infecções de HIV em todo o mundo. Dos mais de 30 milhões de soropositivos no mundo, estima-se que metade sejam mulheres. “É essencial desenvolver novas estratégias de prevenção para alertar o rumo da epidemia. Esta descoberta é um bom impulso para incentivar esforços tanto na prevenção como na investigação”, conclui Marc Ourllette, director científico do Instituto de Infecção e Imunidade dos Institutos de Saúde do Canadá.

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